sábado, 4 de dezembro de 2010

A VIDA É DOCE


Jamais poderia imaginar que, um dia, iria tirar tempo - por ínfimo que fosse - para tecer qualquer espécie de loa ao cantor e compositor Lobão. Eu até que nutria alguma simpatia pelo desbocado e obsceno cidadão Lobão que, vez por outra, soltava o verbo em rede nacional - quando, inadvertidamente, davam-lhe voz -, mas o artista Lobão fora-me sempre indiferente. O próprio gênero musical que marcadamente o consagrou nunca fora de minha predileção, o rock-'n'-roll. Destarte (sempre quis usar este advérbio!), ignorava-o solenemente.

Mas (bendito mas, sempre possibilitando providenciais arrependimentos!), eis que surge, para mim, algo incomum em se tratando de Lobão: A Vida é Doce. Sinceramente, A Vida é Doce não é Lobão. Ou, senão, todo o resto não o é. Refiro-me ao álbum, cujo ápice é a canção homônima (ouçam-na, ali em cima, à direita, no ESCUTA ESSA!).

A Vida é Doce (o álbum) é um deleite do início ao fim. É, na minha humilde e desqualificada opinião, uma obra densa e completa, cuja audição, por mais recorrente (tenho-na escutado quase que diariamente), ainda rouba-me o ar. Não sou crítico musical, tampouco tenho a pretensão de sê-lo, portanto, poupar-lhes-ei dos aspectos técnicos, até porque os desconheço. Peço-lhes que ouçam a faixa que lhes disponibilizo no ESCUTA ESSA! e tirem suas próprias conclusões. Ouçam-na várias vezes e notem que, ao cabo de tudo, resta-nos uma puta vontade de pedir perdão: ME PERDOA, ME PERDOA, ME PERDOA... Assim mesmo, com a colocação pronominal desfigurada pela licença poética - lindamente desfigurada.

Me perdoa a expressão pré-fabricada, mas é que eu não sabia que a vida era tão doce.

Em tempo: a feliz indicação de A Vida é Doce foi do Luciano, colega de trabalho, de não-trabalho e, em venturosas oportunidades, de copo.

domingo, 21 de novembro de 2010

AFORISMO

Vou vivendo e dando-me conta da minha própria finitude.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

DIZE-ME COM QUEM ANDAS...


O que me faz diferente (nem melhor, nem pior: diferente, apenas) dos petistas que hoje me apedrejam - com os quais compartilhei, outrora, meu esquerdismo quase patológico - é que eu sigo fiel à ideologia de esquerda; já os petistas, seguem compulsivamente petistas, a despeito dos rumos, a meu ver equivocados, que a agremiação trabalhista tomou. Uma vez, lembro-me bem, PT e esquerda foram quase sinônimos, e eu, esquerdista nato, autopropagava-me petista - com orgulho. Hoje, em nome da coerência, não o faço mais.

Ou será que a imagem acima quer dizer exatamente o contrário do que diz: Sarney e Temer, num inexplicável surto de humanismo e conscientização social, converteram-se ao esquerdismo?!

[Ok, ok... até mesmo o sarcasmo tem limites]

Que venham as pedras!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O MUNDO CORRE PERIGO

Conforme imagens amplamente divulgadas pela imprensa televisiva brasileira (vide vídeo que segue), há fortes indícios de que o Brasil possui, sim, significativo poder bélico de destruição em massa, o que poderia, em uma eventual situação de instabilidade ou de conflito internacional, comprometer seriamente a paz mundial e o bem-estar da humanidade.

Uma arma de destruição em massa, ou arma de destruição maciça (ADM), é aquela capaz de causar um número elevado de mortos numa única utilização. Esta designação é atribuída a armas nucleares, a armas químicas e a armas biológicas, bolinhas de papel e rolos de fita crepe - sendo estas duas últimas consideradas as mais nocivas e destrutivas.

Observe, no vídeo abaixo, a utilização do mais letal artefato de destruição em massa de que se tem conhecimento. Atentem para os resultados devastadores que podem redundar do uso desta espécie de arsenal e o seu incrível poder de destruição. As imagens são fortes e podem chocar. O cidadão que você vê no vídeo sendo covardemente alvejado é o sr. Zé Homer Simpson Serra, candidato a candidato derrotado no segundo turno das eleições presidenciais do Brasil - com amplas possibilidades de lograr êxito, segundo pesquisas divulgadas recentemente. As imagens dizem tudo.


Relatos anônimos ainda dão conta de que o uso de tal arsenal é recorrente em - pasmem! - escolas de ensino fundamental de todo o país, durante o horário do recreio. Uma servente de escola, que preferiu não se identificar, afirma que assiste diariamente ao uso indiscriminado e desumano deste tipo de artilharia pesada, e garante que seus efeitos são destruidores. Segundo a servidora, responsável pelos serviços de limpeza e conservação da instituição de ensino, há situações extremas em que os alunos, alcançando o ápice da crueldade humana, utilizam-se das bolinhas de papel, associadas aos rolos de fita crepe, para agredirem-se mutuamente com o máximo do poderio bélico de destruição em massa de que dispõe. "É um verdadeiro massacre!", lamenta.

Um cinegrafista amador conseguiu registrar as tristes cenas que seguem. As imagens seriam de um suposto massacre ocorrido em uma escola pública de São Paulo, em que os alunos, de parte a parte, valeram-se de bolinhas de papel de destruição em massa na ação beligerante. As cenas são surpreendentes e corroboram o testemunho dado acima (as imagens são de pouca qualidade, mas não a ponto de sonegarem a sordidez explícita com que atuam os protagonistas da ação).



Têm-se considerado fortemente, nos círculos decisórios de alto escalão, a necessidade urgente de intervenção das forças de paz da ONU no país, com o inestimável auxílio das forças armadas norte-americanas - que possuem um invejável histórico de lutas antiterroristas e pela paz -, para averiguar e existência de armas de tal natureza e, conseqüentemente, providenciar a imediata destruição das mesmas.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

CONTRA BURGUÊS...

Dizem por aí que o voto é secreto, certo? Errado! Não é não!

Eis o meu:

[três de outubro, por volta das treze horas]

16 => CONFIRMA
tiruli

16 => CONFIRMA
tiruli

161 => CONFIRMA
tiruli

131 => CONFIRMA (a nobre exceção)
tiruli

16 => CONFIRMA
tiruli

16 => CONFIRMA
tiruliruliruli...

Agora, para trinta e um de outubro, restaram o 13 e o 45. Um dos dois, Dilma ou Serra, será eleito Presidente da República. Sabem em quem eu vou votar? Dizem que o voto é secreto, certo? Errado!

Vou votar 16!
CONFIRMA
tiruliruliruli...

DEVANEIOS

Às vezes me pergunto: qual me seria o sentido da vida se já li Stendhal, Dostoiévski e Kafka?

Relê-los, talvez...

SOBRE CHICOS E DILMAS

Ato organizado por artistas e intelectuais em apoio à candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, realizado na noite de segunda-feira (18) no Rio de Janeiro.


Sou fã incondicional do artista Chico Buarque. Ponto. In-con-di-cio-nal!

Tanto que, esta, ao meu ver equivocada, manifestação de apoio à Dilma (leia-se, PT, mancomunado com o famigerado PMDB, do não menos famigerado José Sarney - isso tudo em nome da governabilidade), não faz esmaecer nem fração da minha – arrisco ser sincero – idolatria. Mas, Chico, já tá mais do que na hora de ser coerente. O PT de hoje nada guardou do PT dos tempos passados - do saudoso e idealista PT de 89, por exemplo. O Partido dos Trabalhadores, hoje, é uma associação de centro-direita que dá seus resvalões na esquerda, esporadicamente. A referida agremiação "trabalhista" ostenta, ainda, o signo trabalho tão-somente em sua contraditória sigla, não mais em suas (im)posturas e atos. É uma incongruência absurda. Caberia, com muito mais justeza, em vez do desconfortável T, um providencial e condizente MF. PMF, Partido do Mercado Financeiro. O trabalhador está órfão e o banqueiro, muito bem acolhido por pai (Lula) e mãe (Dilma).

Pô, Chico (certo que ele vai ler este post, né!?), o esquerdismo não carece de canoa. O esquerdismo é o remador. A canoa do PT furou - e afundou. Rememos, então, noutras pirogas*! Sempre pra esquerda.

Nota: não pensem que passou pela minha cabeça, em algum momento, que o compositor/escritor devesse manifestar apoio ou simpatia à candidatura serrista. Como já mencionei anteriormente, sou PSTU - a esquerda em estado puro. Serra e PSDB, jamais! Pois até mesmo a incondicionabilidade da minha admiração depararia, então, com seus limites.

*Glossário (providencial!!)
Piroga (regionalismo): embarcação indígena a remo, cavada a fogo em tronco de árvore

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

[silêncio]

[Estou apenas aproveitando uma ótima oportunidade de ficar calado.]

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

F5

Em tempos de eleição, nada mais pertinente do que o bem-humorado poema sertanejo de José Fortuna, interpretado pelo próprio, em duo com Pitangueira.

ESCUTEM ESSA! (O Candidato e o Caipira, logo ali, à direita)

Um pouco de graça (explícita) pra abrandar a desgraça (implícita).

terça-feira, 12 de outubro de 2010

POST CURTO

Tenho de tomar muito cuidado com os posts curtos. Vem-me atraiçoando, nos últimos tempos, uma irrefreável inclinação à escassez de palavras nos meus escritos, o que me pode render a humilhante pecha de blogueiro com alma twitteira. O Twitter é, em relação ao ofício de escrever, a mais perfeita harmonização da incapacidade com a preguiça, travestido, no entanto, de nobre insurreição à prolixidade, o que, efetivamente, redunda em uma modorrenta apologia ao laconismo. Não quero isso para mim.

Sim, este é um post curto. Mas essencialmente curto (em que pese os mais de cento e quarenta caracteres).

terça-feira, 5 de outubro de 2010

AMOR


Quanta crueldade a desbotada, mas poderosa, frase "eu te amo" pode ocultar!
Em nome desse sentimento - dito superior -, quantas atrocidades são cometidas, quantos cálices são despedaçados, quantas almas são reduzidas a nada, quantas existências são enxovalhadas...
Mas o amor legitima tudo, até mesmo a sua sordidez intrínseca.
Será?

sábado, 11 de setembro de 2010

11 DE SETEMBRO

Só pra manter acesa a chama.

ELEIÇÕES 2010

Pois é. Cá estamos de novo. Mais uma eleição a nos fustigar a consciência - coisa que os grandes protagonistas do "espetáculo democrático", os políticos, nem sabem que existe. E eu, embasbacado diante do horário eleitoral gratuito (?), encontro-me fortemente inclinado a, novamente, exercer o meu sagrado direito (?) do voto da maneira mais anárquica e libertária que vislumbro: anulando-o.

O asco que ando sentindo em relação ao pútrido jogo político brasileiro compele-me a agir assim. É verdadeiramente um jogo, cujas cartas são marcadas e os coringas nos são sonegados. Nada mudará pelas mãos desses sanguessugas inescrupulosos e, jamais, o simples fato de ser-nos facultado o direito de pô-los lá far-nos-á cidadãos, tão-pouco conferirá ares democráticos à nossa tosca existência como sociedade.

O Partido dos Trabalhadores, por cuja causa, outrora, suei sangue, há tempos que não é merecedor do meu voto. Respeito opiniões contrárias, mas tenho meus motivos para, na condição de trabalhador, elevada à potência de servidor público, manifestar-me neste sentido.

"Estou achando muito engraçado no Brasil as pessoas quererem trabalhar  30 horas, daqui a pouco as pessoas querem ganhar sem trabalhar." 

Presidente Lula.

Pérolas como essa fizeram-se repensar muita coisa.

O PSol nada mais é que o filho ambicioso e mimado querendo matar o pai pra ficar com a herança. Bate no pai, bate na mãe, bate no irmão, enquanto o seu cachorro morre de fome.

De repente, algo me soa troantemente: "Contra burguês, vote dezesseis."

Não vou mais anular o meu voto. Sufragiar-vos-ei, dezesseis. De rabo a cabo (de deputado a presidente)! Chega de acreditar nestas agremiações que são de esquerda tão-somente até onde o jogo político as permite ser de esquerda; socialistas, desde que não perturbem a paz capitalista; humanistas, desde que as pessoas não interfiram nos índices da BOVESPA.

Quero novamente a utopia exeqüível refletida no olhar colérico daqueles que realmente querem virar do avesso o que já está pra lá de revirado. Quero voltar a esmurrar ponta de faca até a faca pedir arrego. Quero - e vou - votar num partido que ainda profere larga e atrevidamente a palavra revolução, na mais pura acepção do termo, e ostenta, sem constrangimento, a indelével insígnia da foice e martelo. A partir daqui, vou de PSTU. E o resto, que vão - respeitosamente - tomar no CU!

sábado, 17 de julho de 2010

B+U=BU!

Puta crueldade tua! Deste-me o mais precioso presente e, hoje, extirpa-o de dentro de mim. Não é, eu sei. Conceitualmente, nunca foi. Mas se fosse, talvez nem fosse tanto quanto o é, não sendo. Puta crueldade tua...

(sei que tens este direito, mas bem que poderias tê-lo esquecido no fundo de uma gaveta qualquer atulhada de bugigangas desprezíveis)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

ELE E SUA SOBERBA

Era um ser incompreendido. Inegavelmente, um homem à frente de seu tempo. Orgulhava-o tal condição. Tanto que, chegado o momento vaticinado, suicidou-se para assumir a vanguarda de si próprio.

Superou-se a si mesmo e tal condição deve tê-lo deixado empachado de orgulho!

domingo, 11 de julho de 2010

SONETO DA TRAIÇÃO

Sempre me agigantava em teu desvelo
Seguro nos teus muitos braços fortes
Mas, hoje, pude ver, sem querer vê-lo
Teu mais cínico ato, sem recortes

Amei-te de um amor cego e inocente
E fiz desta paixão brioso escudo
Por nós, fiz-me, na guerra, combatente
Injuria a teu respeito!? ALTO! CALUDA!

A sós, sabia bem, não era nada
Portanto, quis-nos juntos, e rumamos
Até que me expurgaste em meio à estrada

Em nome de algo que não conclamamos
Traíste-me. O amor não deu em nada
Tomaste o descaminho. Onde é que erramos?

domingo, 27 de junho de 2010

RETIRANTES

Dois artistas: um, erudito, outro, popular; duas formas distintas de expressão artística; dois sentidos incitados; uma só intenção. Ouça, veja e emocione-se.

CANDIDO PORTINARI, Retirantes, 1944 Óleo s/ tela 190 x 180 cm.
Col. Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand São Paulo, Brasil

O Retirante, com Luiz Vieira (Ubirajara dos Santos e Luiz Vieira).


De que outra forma, senão através da manifestação artística, seria possível tão impensável encontro? Portinari e Luiz Vieira conversam através de sua arte.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

AFORISMO

Quem não aceita a crítica não merece o elogio.

sábado, 19 de junho de 2010

DOS PEQUENOS PRAZERES DA VIDA


Surpreendi-me, hoje, divagando acerca dos pequenos prazeres da vida. Refiro-me, aqui, àqueles sutis prazeres que, a olhos alheios, parecem tão insignificantes, mas que, para quem os desfruta e preza, são de uma intensidade comovente. Posso, inclusive, afirmar que esses pequenos grandes momentos, de certa forma, dão-nos sentido à vida. Não são, naturalmente, suntuosos e anunciados como os grandes prazeres, mas são o oxigênio diário que os possibilita, quando de suas esporádicas aparições. São momentos, muitas vezes, solitários e introspectivos, em que, sem constrangimento nem receio, encontramo-nos com nós mesmos. E isso nos faz um bem danado.

Eu, por exemplo, dedico-me, diária e religiosamente, a três destes microfragmentos de felicidade, e posso elencá-los aqui, sem a pretensão de não lhes soar ridículo, mas, também, sem o menor receio de parecer sê-lo. Meus pequenos prazeres, curiosamente, guardam estreita relação com substâncias estimulantes e até causadoras de dependência, mas tal relação, de regra, é pautada pela moderação (de momento, não abordaremos as exceções). Peço-lhes, portanto, que desconsiderem tal peculiaridade, afastando desde já a desconfiança de que esteja eu, aqui, sofismando em favor do vício. Não são vícios, são (hipócritas, condenai-me!) bons hábitos. Ei-los:

O meu pequeno prazer matutino não poderia ser outro senão o tradicionalíssimo costume gaúcho de sorver um bom chimarrão. E o faço há anos, dia-a-dia, lendo preguiçosamente o jornal. É o primeiro afazer do dia: cevar o mate e, enquanto a chaleira não chia anunciando a temperatura exata da água, buscar o jornal na caixa de correspondências;

Já nas horas vespertinas, meu pequeno grande prazer se dá logo após o almoço. Dispenso a sobremesa e saboreio uma bela térmica de café preto, novo, bem quente, bem forte e muito doce, sempre acompanhado, ou de uma boa leitura - muitos clássicos da literatura já foram dissecados à presença de um bom café -, ou do rascunhar de algum devaneio, como este que ora lês - que acaba de vir à luz sob o excitante efeito da cafeína;

Por fim, à noite, na preliminar do derradeiro repouso diário, deleito-me ao degustar as minhas duas ou três - que podem, sem muito esforço, estender-se a cinco ou seis, conforme a sede da alma - sagradas e consagradas latinhas de cerveja, estúpida e perplexamente geladas, assistindo a qualquer asneira a que a televisão aberta nos inflige. Este é o momento diário de descompromisso e negligência consentida que precede o desligamento total do sistema operacional responsável por dar vida a este velho hardware que já beira as quatro décadas de existência.

Excentricidades? Talvez. O centro nunca foi, mesmo, meu refúgio dileto. Ser excêntrico, segundo meu velho amigo Houaiss, é "agir ou pensar de maneira original, extravagante, fora dos padrões considerados normais ou comuns", cuja antonímia perfeita eu encontro no adjetivo ordinário e seus sinônimos: comum, corriqueiro, trivial e usual. Ser excêntrico é ser a cerveja regélida ou o café escaldante, e não algo meia-boca entre um e outro: a cerveja morna ou o café requentado.

São esses os meus pequenos prazeres da vida: um adorável amálgama de vícios, hábitos e excentricidades; o cotidiano com aura poética. Arrisco-me a afirmar que, quem não os possui, deveria desesperadamente tratar de encontrá-los, eis que, sem os cultivar, estaremos seriamente propensos a tornarmo-nos irremediavelmente normais.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

DECEPÇÃO

Desta vez, como nunca antes o fizera, ela o havia conseguido magoar profundamente. Não que ele, até ali, houvera se mostrado um ser insensível e indiferente, passando incólume pelas intempéries comuns a todo relacionamento. Longe disso. Ele sentia até demais, mas relevava os arroubos de agressividade e crueldade com que ela, vez por outra, alvejava-o levianamente.

Mas neste episódio ela se superara.

E não fora pelo teor da agressão. Este era raso e calunioso e, conseqüentemente, inócuo - e ela, em seu íntimo, sabia muito bem disso. O que realmente o havia ofendido foi o quão baixo ela fora capaz de descer para, tão-somente, saciar o seu desejo de magoá-lo. A ofensa, em si, não o atingira, posto que vazia, embora impregnada de veneno. O que o desmontou havia sido a pequenez de caráter que a fizera lançar mão, na maior sem-cerimônia, de um ataque preconceituoso e maledicente, em que pese a sua inconsistência, para tentar feri-lo profundamente.

Ela tentara, através do ardil da dissimulação, fazê-lo acreditar que ela própria cria no teor das ofensas que lhe direcionava, quando era evidente, para ambos, a inverossimilhança das mesmas. Cena patética. A torpeza da tentativa malograda foi o que mais o enojou - e o assustou, vindo de quem veio. Não feriu pelo teor, mas sangrou pelo gesto.

terça-feira, 18 de maio de 2010

F5

Na seção ESCUTA ESSA!, uma pérola de Violeta Parra, interpretada por cinco grandes nomes da música.
Nas DEGUSTAÇÕES COTIDIANAS, Espelhos: uma história quase universal. A história da humanidade sob um novo ponto de vista.

VAIDADES

Há - e convivo com muitos - quem se vista com apuro, paramenta-se com irretocável precisão, busca e rebusca em butiques e lojas a mais perfeita sintonia entre o vestir e o sentir-se bem. Quer, em suma, sentir-se bonito, melhor, valorizado. E este resultado - o estar bonito, o sentir-se bonito - é fruto de um processo árduo e meticuloso de busca que, por si só, já é prazeroso e vital para aquele que acomoda a vaidade no topo da sua hierarquia de valores.

Processo e resultado. Eis a questão.

Proponham-me estar bonito, bem-vestido, afetadamente trajado: aceito de pronto (quem não gosta de bem-vestir-se? Xô, hipocrisia!). Exponham-me, então, o penoso e depreciativo processo necessário para a obtenção de tal resultado: tô fora! Não pago o preço. Sou maltrapilho nato e não me incomodo com isso. Tenho de manter a minha fama intercontinental de pelitrapo.

Esse é o mote: o preço a que se está disposto a pagar; o custo-benefício da coisa toda. É inegável que, mesmo um ser despojado de requintes, tal como este que cá rascunha, sentir-se-ia deveras aquilatado e envaidecido dentro de uma reluzente embalagem. Mas eu, em particular, raramente estarei disposto a pagar o preço - para mim, exorbitante - de tal afetação. Ademais, quanto mais valoroso for o conteúdo, tanto mais naturalmente se dá o descarte da embalagem - e vice-versa.

Há quem mova mundos e fundos em nome da vaidade. Não movo mundos, nem disponho de fundos para tanto.

P. S.: tenho de admitir que, dentro de um terno, até pareço gente.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

SOBRESSALTO

Saltei de um pesadelo medonho e pus-me sentado na cama, concedendo-me um tempo pra sair da letargia. 04:12. Tão logo pude, tateando a escuridão, corri ao banheiro, acendi a luz, e escancarei a torneira da pia: água, tão-somente! Fria, translúcida e molhada. Água no seu aspecto mais comum e ordinário. Cadê aquele sangue todo que golfava da torneira há segundos, com o que eu escovava prazerosamente meus dentes - consciente de tudo, mas indiferente a tudo?

A vida real é tão verossímil, tão coerente e previsível... Nada se compara às absurdidades do universo onírico - a expressão mais viva da vida!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

SINAL DE VIDA

Não, não... eu ainda não desisti de escrever! Pretendo fazê-lo por, no mínimo, mais uns 170 anos. Estou, tão-somente, atravessando uma fase literariamente crítica que - oxalá! - pretendo superar. Aguardem-me!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

PRENDA

Breve passagem; eterna saudade...


Como se explica, Deus, que passinhos tão leves e encantadoramente cambaleantes tenham deixado pegadas tão nítidas e profundas?! Pois deixaram. E cá, neste cenário de ausência e saudade, suas patinhas ainda deixam pegadas no chão - doídas que só eu sei...

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

ALMA ESTÉRIL

Tempos difíceis, estes últimos. O clima está denso e tenso, e minha aura de poeta vem se mostrando cada dia mais turva e opaca. O cenário é impróprio a acometimentos lírico-literários. Não sei se, novamente, secou-me o verbo ou se foi a alma, desta vez, que se esterilizou. Ambos, talvez...

sábado, 30 de janeiro de 2010

ATUALIZANDO

Dei uma remexida na barra lateral. Quem (ou)viu, (ou)viu, quem não (ou)viu, contente-se com as novidades.

Na seção ESCUTA ESSA!, uma interpretação primorosa - doce e dolente - de Quatro Crioulos, samba de Elton Medeiros e Joacyr Santana, por Ana Martins (com a cara participação do próprio Elton Medeiros), cantora da nova safra cujo disco Samba Sincopado (foto à direita), gravado no Japão, ganha edição brasileira, via Biscoito Fino. Cabe um post sobre o tema, em breve.

Obs.: por vezes, o player custa um pouquinho a disponibilizar o botão play . Sugiro, caso o botão play esteja desabilitado, clicar no stop e, em seguida, no play, para "forçar" o download do mp3 e apressar a possibilidade de reprodução.

Mais abaixo, nas DEGUSTAÇÕES COTIDIANAS, mais um pouco de boa literatura: Indignação, de Philip Roth (foto abaixo), um dos grandes escritores estadunidenses da atualidade. Já devidamente degustado por este que cá rabisca; lenta e intensamente, como convém a degustações de tais jaezes. Dentro em pouco, darei início à leitura de Homem Comum, do mesmo autor.

sábado, 2 de janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

AS RAZÕES DA EMOÇÃO

Na contramão da razão
Repreendeu-me a emoção:

"Não!

Não sou cérebro, sou coração
Não sou para algo, sou em vão
Não sou bom-senso nem ponderação
Respeita a minha condição!

Sou heresia, não oração
Sou poesia, não equação
Sou boemia, não profissão
Não sou o dia, sou inspiração
Não sou saber, sou intuição
Sou desatino
Ora, sou emoção!"

Constrangido, disse-lhe eu: tens razão.

LIRALGIA

Sem dor não há poesia
Não se tange o verso
Na analgesia:
Contexto adverso à poesia

Tens felicidade, alegria?
Esquece a lira, então
Que suas cordas soam
Tão-somente na prostração.